Notícias

cineclube da capital

O Homem de Areia celebra 10 anos

publicado: 19/01/2026 08h58, última modificação: 19/01/2026 08h58
Fundada em 2015, na sede da FCJA, iniciativa reúne cinéfilos e especialistas para exibições de filmes e debates
uma das sessões exibidas no Sesc - Divulgação FCJA.jpeg

Atualmente, as sessões vêm acontecendo no Sesc Cabo Branco, enquanto o auditório da FCJA passa por reparos | Foto: Divulgação/FCJA

por Fátima Farias (Especial para A União)*

Uma década é, exatamente, o período de tempo que abrange o surgimento, a implementação e a consolidação de um destacado projeto cultural: o Cineclube O Homem de Areia, da Fundação Casa de José Américo (FCJA) — instituição situada à Avenida Cabo Branco, no 3.336, em João Pessoa.

A data de estreia do cineclube foi o dia 10 de junho de 2015, com a exibição do filme “Relatos Selvagens”, uma produção argentina de Damián Szifron. Desde então, foram exibidos cerca de 130 filmes no espaço da FCJA, com bandeiras de diversos países. As sessões, gratuitas, continuam ocorrendo nas primeiras quartas-feiras do mês. Após cada exibição, há sempre um momento para comentários, seguido de debate sobre o filme, com a participação de convidados — sejam críticos de cinema ou especialistas no tema abordado na obra. Atualmente, as sessões vêm acontecendo, excepcionalmente, no Sesc Cabo Branco, enquanto o Auditório Juarez da Gama Batista, da FCJA, passa por reparos em sua estrutura.

Sobre a importância do papel do Cineclube O Homem de Areia na comunidade local, o presidente da FCJA, o jornalista Fernando Moura, definiu: “[O cineclube é um] ambiente de resistência cinéfila, em embate desproporcional da telona contra a telinha. Espaço de vivências e troca de impressões, mantendo as melhores tradições na análise de cinema, arte que sempre encantou os paraibanos”.

Origens

A ideia de criação do cineclube partiu do então presidente da FCJA, o professor Damião Cavalcanti, que contava com a então vice-presidente Rejane Ventura na coordenação da iniciativa. Ele revela que, desde os tempos de sua adolescência, participa de cineclubes, nos quais conviveu com nomes como Linduarte Noronha, Wills Leal e Carlos Aranha. “Era um período de muito interesse pelo cinema, ao que contribuíam críticos e cineastas, como os jornalistas Jurandy Moura e Antônio Barreto Neto. Havia uma efervescência da juventude que se concentrava todas as quintas-feiras, no Cine Municipal, para um filme de arte”, relembra o professor.

Damião lamenta que o cineclubismo tenha perdido fôlego, no Brasil, depois de 1964. Por isso, vindo desses tempos, o professor pensou em revivê-los e promover, na FCJA, o retorno do movimento. Também partiu dele nomear o cineclube como “O Homem de Areia”. “Foi para homenagear o amigo de Itabaiana, Vladimir Carvalho, diretor e realizador do filme ‘O Homem de Areia’, mas, sobretudo, porque José Américo de Almeida é protagonista desse filme e figura central da fundação”, justificou.

 Ao longo dos últimos 10 anos, o espaço exibiu obras de gêneros variados,  destacando-se por aspectos como arte, linguagem e enredo. “Filmes, às vezes, já esquecidos, fora da onda comercial, mas que se impuseram como obras de arte, mesmo longe dos festivais de Hollywood ou da indústria do cinema. Um bom cineclube não deixa que os bons diretores sejam esquecidos, tampouco seus filmes”, destaca Damião.

Para a instalação do Cineclube O Homem de Areia, foram reestruturados o Auditório Juarez da Gama Batista e o salão de recepção da FCJA, com uma reforma no sistema de refrigeração, poltronas confortáveis e um projetor de última tecnologia para tela grande.

Ao chegar ao hall, o cinéfilo deparava-se com um cavalete, onde constava a divulgação dos dados sobre o filme em cartaz, além de panfletos com o texto de um comentarista.

Curadoria combina rigor, sensibilidade e espírito democrático

Na criação do cineclube, também surgiu a ideia de compor um conselho diretor, com 12 membros, formado por intelectuais com conhecimento sobre quais seriam os filmes de agrado do público, para serem indicados e escolhidos por meio de uma votação. 

Para Mirabeau Dias, projeto sediado em Cabo Branco é um laboratório de difusão do audiovisual | Foto: João Pedrosa

Para integrar o grupo inicial, Damião Ramos convocou algumas das vozes mais atuantes da crítica e da cinefilia pessoense. Entre os primeiros conselheiros, estavam Wills Leal, escritor, crítico de cinema e fundador da Academia Paraibana de Cinema (APC); Mirabeau Dias, pesquisador e ensaísta ligado à história do cinema; João Batista de Brito, escritor e crítico de cinema; e Alex Santos, cinéfilo e divulgador da produção cinematográfica brasileira e internacional. Junto a eles, outros estudiosos, professores e frequentadores históricos de cineclubes colaboraram na formação de uma curadoria que une rigor, sensibilidade e espírito democrático.

“O Cineclube O Homem de Areia representa uma das iniciativas mais duradouras e significativas na formação cinematográfica da Paraíba. Sua criação nasceu de uma visão clara: oferecer à cidade de João Pessoa um espaço permanente de encontro entre cinema, literatura, memória e crítica cultural. Em um ambiente marcado pela paisagem de Cabo Branco e pela herança intelectual de José Américo de Almeida, o cineclube transformou-se rapidamente em laboratório de pensamento e difusão do audiovisual”, avalia Mirabeau Dias.

Foto: Divulgação/FCJA

Outro antigo conselheiro, o crítico de cinema Andrès von Dessauer lembra da sessão de estreia, com “Relatos Selvagens”, filme sugerido por ele. “Os seis episódios de humor negro do filme são tão diversificados que acabaram agradando gregos e troianos. Sala lotadíssima, tiveram que colocar cadeiras extras”, conta Andrès, que atua, hoje, como comentarista do cineclube.

Encontros educam o olhar e estimulam o pensamento crítico

O Cineclube O Homem de Areia estruturou-se, em 2015, com um princípio que permanece até hoje como sua espinha dorsal: a exibição pública e gratuita de filmes, realizada todos os meses, sem interrupção. Esses encontros mensais transformaram-se na principal atividade do projeto, garantindo ao público pessoense acesso regular a obras fundamentais dos cinemas mundial e brasileiro.

A dinâmica das sessões segue uma estrutura que combina acolhimento, reflexão e diálogo. Antes da projeção, um dos conselheiros ou convidados apresenta o filme, contextualizando sua estética, seu período histórico e suas camadas temáticas. Após a exibição, o auditório da FCJA converte-se em uma arena de conversa: os espectadores comentam, interpretam e atravessam juntos a obra recém-vista. Essa troca, livre e sensível, é talvez o maior valor do cineclube. Ali, o cinema deixa de ser mero produto cultural para tornar-se experiência compartilhada.

A curadoria sempre privilegiou a diversidade: ciclos dedicados ao cinema paraibano, retrospectivas de grandes autores, homenagens a movimentos históricos, resgates de filmes raros e, sobretudo, a abertura para obras que desafiam o olhar convencional. A formação de público foi — e continua sendo — uma vocação central do Cineclube O Homem de Areia; não se trata apenas de exibir filmes, mas de educar o olhar, aproximar gerações e oferecer uma porta de entrada para o pensamento crítico.

Essa iniciativa, abrigada em uma das instituições culturais mais simbólicas do estado, ampliou o papel da Fundação Casa de José Américo como guardiã da memória paraibana. O cineclube não apenas dialoga com essa tradição, mas a renova: faz da FCJA um território onde literatura, cinema, história e política cruzam-se, reafirmando que a cultura é sempre movimento, areia que o vento reorganiza, maré que retorna.

Ao longo dos anos, o espaço tornou-se parte indispensável do calendário cultural pessoense. Sua continuidade, seu caráter formativo e sua abertura ao público constituem um legado duradouro: um lugar onde o cinema não apenas é visto, mas pensado; não apenas é exibido, mas vivenciado. A iniciativa de Damião Ramos, somada ao trabalho dos primeiros conselheiros e à participação fiel do público, consolidou um espaço que honra o passado, ilumina o presente e prepara novas gerações para olhar, compreender e dialogar com o mundo por meio da imagem.

Para a atriz Zezita Matos, ex-presidente da APC, o cineclube é “mais um ganho para o cinema paraibano”. Ela observa: “As casas de cinema que tínhamos, no Centro e nos bairros, foram todas fechadas e, agora, ficamos com a Fundação como uma saída, para ver filmes que, de fato, fazem questionamentos”.

“Com a ascensão da Sétima Arte e do cinema brasileiro, nos últimos anos, espero que a ideia criada há 10 anos tenha um futuro promissor. Que venham mais e mais bons filmes”, acrescenta a professora e escritora Neide Medeiros Santos, frequentadora assídua do cineclube.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de janeiro de 2026.