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Prática reúne adeptos no rio e no mar

publicado: 30/03/2026 09h05, última modificação: 30/03/2026 09h05
Do Litoral ao interior do estado, atividade movimenta o turismo local e atrai até visitantes estrangeiros
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Para Rafael Marques, todos os praticantes devem respeitar o princípio da soltura dos animais | Fotos: Rafael Marques/Arquivo pessoal

Robalo, cioba, tilápia, cavala branca e xaréu estão entre as espécies de peixes encontradas na Paraíba. Impulsionado pela diversidade da fauna e das belezas naturais, o estado tem ganhado destaque entre os adeptos da pesca esportiva. A prática, que vai do rio ao mar aberto, reúne esportistas, empreendedores e turistas em torno da experiência de contato com a natureza.

Alguns locais específicos destacam-se como polos locais da atividade. No Litoral, a foz do Rio Paraíba, entre Cabedelo e Lucena, concentra pescarias de espécies como camurupim (tarpon, como é conhecido em inglês), robalo e tilápia. Já no interior, o Açude Epitácio Pessoa — popularmente conhecido como “Boqueirão” —, maior reservatório de água do estado, chama atenção pela variedade de espécies, como tilápia, traíra e tucunaré. O Açude de Coremas também oferece uma estrutura que permite aos pescadores aproveitar o espaço com suas famílias.

A oferta diversificada de ambientes ajuda a explicar o crescimento desse tipo de prática. “Eu pesco em Baía da Traição, João Pessoa, e na Praia de Jacumã [em Conde]. São destinos onde vamos de 30 km a 40 km mar adentro, na beira do talude continental — uma área de grande concentração de vida marinha”, explica Gustavo Adelino, praticante da pesca oceânica.

Também adeptos da pesca em alto-mar, o casal paulista Carlos Matzner, de 68 anos, e Clotilde Matzner, de 71, navega cerca de 30 km da costa para praticar a atividade em locais onde a profundidade ultrapassa os 100 m. “É um aprendizado constante. A gente evolui em técnica, equipamento e segurança”, conta Clotilde, que diz já ter fisgado uma cavala de 20 kg. Ela é, de fato, a pescadora do casal; apaixonado pelo mar, Carlos aprendeu a pilotar embarcações para apoiar as atividades da esposa, tanto na navegação quanto na hora de trazer os peixes ao barco. “É pesado e trabalhoso para uma pessoa só”, pontua.

Clotilde nutre a paixão pela pesca desde criança, quando a atividade já fazia parte de sua programação familiar nos fins de semana. Chegando em João Pessoa, em 2011, ela voltou à prática na beira da praia. “Depois, pegamos nosso primeiro barco. Íamos só para o rio, mas eu quis ir um pouquinho mais para o fundo, então compramos outro barco. Aprimorei minha técnica e, hoje, pesco mar adentro”, destaca.

Demanda

A atividade também movimenta o setor turístico, com empreendedores oferecendo passeios guiados para adeptos e interessados. Romildo Júnior, que pesca há quase três décadas, passou a levar clientes para o Rio Paraíba, há cerca de 15 anos. “As pessoas começaram a perguntar como faziam para pescar comigo, e esse tipo de serviço não existia aqui. Foi uma demanda que surgiu naturalmente”, explica.

Hoje, ele conduz sessões de pescaria, que duram cerca de seis horas, voltadas ao camurupim ou tarpon — peixe conhecido como de difícil captura. Segundo Romildo, o foco não está na captura em si, mas na experiência. “Nossa pescaria é 100% esportiva. Trabalhamos só com isca artificial e devolvemos todos os peixes”, garante. “O tarpon é uma espécie muito admirada e temos a felicidade de tê-la no Nordeste. Como é um peixe que gosta de águas quentes, mais tropicais, a incidência dele é maior na região. É uma pescaria que tem suas dificuldades, por isso ele é muito desejado”, detalha Romildo.

No segmento de mar aberto, Gustavo Adelino atua com a Zagaia Pesca Oceânica. Servidor público, ele concilia o trabalho com a pesca, prática que iniciou aos 10 anos. As saídas ocorrem em áreas distantes da costa, com profundidade superior a 100 m — ambiente ideal para espécies como atum, cavala e dourado. “Eu adquiri experiência com os pescadores artesanais e fui me aperfeiçoando. Eu tinha uma embarcação modesta, mas bem equipada e já classificada, junto à Capitania dos Portos, para navegação em mar aberto. Muitos amigos começaram a pedir para ir comigo e comecei a levar grupos de pescadores. Hoje, levo gente até do exterior”, relata.

Gustavo frisa que a atividade segue a legislação vigente. “Tenho uma estrutura bem robusta, com toda a segurança e material específico para a pesca esportiva na costa da Paraíba. Tudo devidamente documentado, legalizado. Temos a licença e cumprimos todos os limites de pesca ao pé da letra”.

Qualidade de vida

Guia profissional para quem busca aprender a atividade, Rafael Marques, da Jampa Fishing, reforça que a pesca esportiva é aquela praticada por lazer, não para subsistência. Atuando no estuário do Rio Paraíba, ele tem como focos o camurupim e o robalo. “São duas espécies que atraem pescadores de várias regiões do Brasil e até de fora. São extremamente divertidos de fisgar, e é por conta disso que são atrativos para a prática esportiva”.

Rafael também chama atenção para a necessidade de preservação dos animais. Segundo ele, a soltura dos peixes é um princípio da pesca esportiva, mas ainda pouco respeitado. “O camurupim, por exemplo, é protegido por lei e teve o abate proibido desde 2014, quando foi considerado uma espécie vulnerável. Mas, ainda assim, os pescadores da região continuam matando-o”, alerta.

Apesar dessas questões, para ele, pescaria é sinônimo de qualidade de vida. “João Pessoa proporciona isso para a gente, a proximidade com o Rio Paraíba. Em 15 ou 30 minutos, você já está subindo no barco para começar a pescaria. E tem todo aquele contato com a natureza. Um bom dia de pescaria faz você relevar muita coisa na vida”, conclui Rafael.

Segmento exige licença específica e é fiscalizado por órgão ambiental

De acordo com a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema), a pesca esportiva e amadora é regulamentada por normas federais e exige licença específica, definida como uma atividade não comercial que tem por finalidade o lazer ou o desporto.

Novo documento do MPA lista boas condutas para a pescaria

Em competições que envolvem a prática, o órgão ambiental exige dos participantes a apresentação de suas licenças de pesca amadora e esportiva, emitidas pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). As espécies-alvo também são avaliadas, bem como os limites de quantidade e tamanho dos indivíduos capturados.

Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o órgão federal não tem, por sua vez, atuação específica sobre a pesca esportiva, mas todos os adeptos devem comprovar sua conformidade à lei. “Fazemos operações de pesca e quem é abordado precisa comprovar sua regularidade, seja pescador amador ou comercial. Os pescadores esportistas também precisam seguir o ordenamento pesqueiro, a época de defeso, os tamanhos mínimos [dos peixes capturados] e os apetrechos adequados”, informa Geandro Guerreiro, chefe substituto de Fiscalização do Ibama.

Orientações

O MPA divulgou, na última quinta-feira (26), o Panorama da Pesca Amadora e Esportiva no Brasil, que tem, entre seus objetivos, propor estratégias para a formulação de políticas públicas e iniciativas que incentivem a sustentabilidade da atividade.

No documento, o órgão federal ainda lista algumas boas práticas que devem ser adotadas pelos adeptos, como reduzir ao máximo o tempo do peixe fora da água — quanto menor o intervalo, melhor para o animal. Ao capturá-lo, deve-se mantê-lo sempre em posição horizontal, com dois pontos de apoio, além de ter o menor contato possível das próprias mãos com o corpo do peixe e evitar exercer pressão na barriga do animal (já que ele pode estar ovado) ou na cauda (região muito irrigada). O MPA também orienta que não se deve manusear o bicho pelas guelras, pois isso pode causar sangramento, nem soltá-lo com rastros de sangue, para não fazê-lo atrair predadores. Sobre a soltura, aliás, é recomendado que se apoie o peixe com as mãos por baixo de seu corpo, para ajudá-lo a se recuperar da captura, e colocá-lo lentamente de volta na mesma área onde ele foi pego.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de março de 2026.