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A União 133 anos

Preservando a memória para compreender o presente e construir o futuro

publicado: 02/02/2026 09h49, última modificação: 02/02/2026 09h54
Periódico centenário guarda parte da história da Paraíba nos acervos físico e digital, que estão disponíveis ao público
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Exemplar da revista “Correio das Artes” de março de 1949; técnicas de preservação garantem a manutenção das publicações| Foto: Carlos Rodrigo

por Emerson da Cunha*

O jornal A União completa, amanhã, 133 anos testemunhando a história e registrando os principais fatos do cotidiano da Paraíba, do Brasil e do mundo. A tarefa é nobre: o centenário periódico propõe-se a ser uma ferramenta para o leitor compreender melhor a política, a economia e as transformações sociais do seu tempo. Mas, se a matéria-prima do Jornalismo — o fato — é etérea, o produto dele não precisa ser. Os registros impressos nas páginas de A União não se perdem no caminhar dos anos. Eles continuam sendo preservados para servir às gerações seguintes, ajudando a sociedade a entender o passado e a construir um futuro melhor.

Nas 16 prateleiras que guardam o acervo físico de A União — localizado na sede do jornal, no Distrito Industrial —, estão jornais antigos, diários oficiais, fotografias, suplementos, revistas, livros e publicações em braile. Parte desse material também está disponível na internet, no site www.auniao.pb.gov.br. Na aba “Arquivo Digital”, podem ser encontradas, por exemplo, versões digitalizadas do jornal ainda do século 19. Também podem ser conferidas versões digitalizadas da revista “Correio das Artes” ainda da década de 1940, quando foi criado.

“A gente faz técnicas de preservação justamente para o acervo histórico. Temos documentos com mais de 100 anos”, explica a assessora da Diretoria de Mídia Impressa, Ana Flor, que tem ainda na equipe Vanessa Azevedo e João Pereira. “Estamos sempre buscando algo na área da arquivologia para realmente preservar esse acervo, que faz parte da memória da Paraíba. Eu vou até dizer que é a manutenção da memória uma das nossas atribuições aqui no acervo”, frisa Flor.

Manter a memória requer condições específicas. “O tipo de papel é muito frágil, não é feito para durar. As fotografias vão ter uma durabilidade maior. Por isso, a gente tenta manter uma temperatura no que a literatura nos indica. Sobre as fotografias, elas são acondicionadas em uma caixa com papel mais neutro, para não pegar poeira. Aqui também fazemos sempre a higienização de todo esse acervo. Fazemos também pequenos reparos nos jornais. Ele se quebra, então fazemos pequenos reparos com uma fita apropriada”, coloca Ana.

Digitalização

O acervo de A União inclui 53 mil arquivos de jornais digitalizados e 20 mil fotos também digitalizadas (de um total de 40 mil imagens armazenadas). Esse processo de digitalização teve início nos anos de 2015 e 2016, mas ganhou mais ênfase a partir de 2019. Cerca de 60% dos arquivos dos jornais encontram-se no formato digital. Uma das vantagens da digitalização, além de democratizar o acesso, é evitar o manuseio dos originais, prolongando vida útil. Preservar a memória faz-se importante porque as páginas do jornal A União guardam e registram acontecimentos da própria Paraíba e do mundo.

“Quando a gente está fazendo pesquisa, todos os assuntos principais a nível local, de estado, João Pessoa, Brasil e mundo, todos foram noticiados pelo jornal A União. Se você disser qualquer assunto, souber mais ou menos a data, eu tenho certeza que a gente vai achar. Praticamente quase tudo que teve relevância, tudo o que foi de importante no mundo, aqui, o jornal noticiou”, aponta a assessora.

A pesquisa ao acervo muitas vezes lança luz sobre a própria história do jornal. Por exemplo, em consulta nos arquivos, na edição de 5 de junho de 1920, Ana Flor encontrou uma resposta do próprio jornal a pessoas e livreiros em busca da segunda edição do livro de poemas “Eu”, de Augusto dos Anjos, de 1918, edição póstuma à morte do autor, em 1914. Nessa comunicação, foi identificado que o livro havia sido editado pela Imprensa Oficial do Estado, que fazia parte d’A União. Ou seja, desde o início do século passado, A União já funcionava editando livros.

História

Para a diretora-presidente da Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), Naná Garcez, o jornalismo é um registro do cotidiano, que depois vira história. Por isso, a importância do acervo do periódico. “Nessa concepção de um jornal centenário, de 133 anos, do qual a gente tem exemplares físicos do começo do século passado, se torna mais importante ainda como fonte de consulta para estudantes, para pesquisadores, para historiadores, para nós, jornalistas. A nossa perspectiva é melhorar a acessibilidade com mais digitalização do acervo físico e ao mesmo tempo ampliar a capacidade de espaço físico para acolher outros exemplares de épocas que nós ainda não temos”, explica Garcez.

Celebração

Para celebrar os 133 anos do jornal A União e os três anos da Livraria A União Poeta Juca Pontes — que também foi fundada no dia 2 fevereiro —, a EPC realiza amanhã o evento Celebração das Letras, que ocorrerá na livraria, localizada no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, a partir das 18h.

Acervo é referência para pesquisadores na Paraíba

Vanessa Azevedo (E), João Pereira e Ana Flor (D) | Foto: Evandro Pereira

Além da própria manutenção, os profissionais também têm um papel cidadão de colaborar com pesquisas que historiadores, escritores, estudantes e mesmo pessoas curiosas desejam fazer ao acervo. Um deles, pesquisador contumaz do arquivo, é o doutor em História pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), historiador e professor do curso de Arquivologia da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) Ramsés Nunes e Silva.

Desde a época da graduação, ele frequenta os arquivos de A União em busca de informações para suas pesquisas. A mais recente é a continuação do livro “Playboys, Transviados e Brotinhos, uma história sobre o rock’n’roll na cidade de João Pessoa 1955-1960”. A ideia agora é produzir um livro discutindo a juventude paraibana entre os anos 1960 e 1970 a partir da ótica do rock, em especial da Jovem Guarda e do “iê-iê-iê”.

“O jornal A União, enquanto tal, mas particularmente seu acervo, é imprescindível, por exemplo, para um investigador que se dedique a tentar refletir sobre a contemporaneidade. Portanto, entre o final do século 19, data de sua fundação, durante todo o século 20, nós vamos ter representações, discursos, fotografias, todo um cabedal de representações sobre a história do cotidiano da Paraíba”, coloca o docente.

As consultas de Ramsés ao acervo geralmente acontecem presencialmente. Segundo ele, o ofício do historiador também passa pela disposição à materialidade. Mas também há outros fatores. “Há a troca de informação com a equipe de arquivistas que A União tem, superpreparada para atender dúvidas, para fazer referências a outras situações de pesquisa. Há fotografias que não foram publicadas, que existem ainda no acervo, muitas referências para jornais que são mais raros e que não estão completamente digitalizados”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de fevereiro de 2026.