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Restauro do Centro Cultural avança

publicado: 11/02/2026 08h39, última modificação: 11/02/2026 08h39
Com investimentos públicos e privados, projeto integra o circuito Caminhos da Fé no Centro Histórico da capital
Restauração  Convento São Francisco_F. Evandro (20).JPG

Trabalhos são realizados na torre do Conjunto Franciscano | Fotos: Evandro Pereira

As obras de reforma no Centro Cultural São Francisco seguem avançando, a fim de valorizar um dos mais importantes patrimônios arquitetônicos, artísticos e culturais de João Pessoa. Atualmente, os trabalhos estão concentrados na torre do Conjunto Franciscano, após a revitalização da fachada e dos azulejos do adro — um trabalho minucioso de limpeza, consolidação, recomposição e reintegração cromática, que exigiu muita técnica e pesquisa histórica detalhada.

A previsão é que a reforma da torre seja concluída em abril deste ano. Em seguida, o foco do projeto será cuidar do interior do complexo, como o piso, capela, retábulos e púlpito. De acordo com a arquiteta Thalita Oliveira, responsável técnica pelo projeto, o processo de restauração vem sendo desenvolvido em fases: primeiro, foi determinado o restauro dos azulejos do adro, do relógio de sol e da fonte da igreja — conjunto no qual foi investido R$ 437.812,11. Desses, apenas a fonte encontra-se ainda em reforma. A azulejaria figurativa que ilustra a Via Sacra, no entanto, foi uma das etapas mais desafiadoras do reparo. 

Removidas há cerca de dois anos, os azulejos foram desmontados e levados para um ateliê, onde permaneceram por aproximadamente cinco meses. “Foram 780 peças, restauradas uma a uma. Fizemos toda a documentação do antes e depois do processo, para registrar tudo o que foi feito”, afirma Thalita. O trabalho incluiu limpeza das superfícies pintadas e do verso das peças, retirada de argamassa e refixação do vidrado, para proteger a obra. Thalita conta que a reconstrução do painel em que Jesus recebe a cruz — a segunda estação da Via Sacra — foi a mais complexa.

“Debatemos, por muito tempo, com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional [Iphan] sobre qual seria a conduta mais adequada, porque o tempo tinha apagado muitos elementos figurativos, inclusive o rosto de Jesus, que é central”, conta. A recomposição só foi possível graças a imagens históricas da iconografia, datadas de 1940. “Nesses registros, pudemos ver o rosto perfeitamente e, por isso, conseguimos restaurá-lo”. Nos trechos da imagem para os quais não se tinha uma referência, foi utilizada uma técnica de esfumado, para garantir a harmonia do painel. Depois dessa etapa, foi autorizada a restauração da fachada do complexo, onde R$ 1.401.270 foram injetados.

Na fachada da igreja, a limpeza da camada de micro-organismos — poeira urbana e, principalmente, algas típicas do clima tropical, que manchavam e corroíam o frontão — revelou detalhes simbólicos que, antes, estavam cobertos. “Eles se alimentam da água dessa pedra, que é muito porosa, e fragilizam a estrutura. Então, quando tiramos a camada de micro-organismos, percebemos que a situação era pior do que a imaginada, porque a pedra estava pulverulenta, se transformando em pó”, explica Thalita. Mas, após a limpeza, também foi possível evidenciar a riqueza ornamental do frontão. “Hoje é possível ver claramente as mãos de São Francisco e de Jesus e a corda com os três nós, que compõem a simbologia franciscana, além de outros elementos, como as volutas e arabescos, que são típicos da ornamentação barroca e, antes, não dava para ver”, diz a arquiteta. Após a conclusão da reforma na torre, o foco do projeto será voltado aos bens artísticos internos. “Já temos recurso para o restauro do piso decorado da sacristia, que é bem diferenciado, com projeto aprovado. Depois, a ideia é avançar para elementos da nave, como a capela dourada, os retábulos e o púlpito”.

As reformas integram o projeto Caminhos da Fé — Educação Patrimonial ao Ar Livre, que propõe um circuito pelas igrejas coloniais do Centro Histórico, como a Catedral Basílica Nossa Senhora das Neves e as Igrejas do Carmo, da Nossa Misericórdia e de São Frei Pedro Gonçalves. Além do Centro Cultural São Francisco, o Mosteiro de São Bento também está recebendo intervenções na fachada, depois de uma reforma no telhado. “Embora os telhados não tenham tanto destaque, eles são fundamentais porque protegem todos os outros elementos, que são mais detalhados”, explica Thalita. Segundo ela, as demais reformas também devem começar pela cobertura dos espaços.

Financiadores

As intervenções contam com recursos de diferentes origens. O adro da igreja foi restaurado com verbas da Prefeitura de João Pessoa, do Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic), do Ministério da Cultura, e do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. Já o financiamento da reforma na fachada conta com recursos advindos de emendas parlamentares. Os interessados em ajudar também podem entrar em contato com o Centro Cultural São Francisco, para realizar uma doação via Pix.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de fevereiro de 2026.