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Coração festeiro

Síndrome acende alerta no Carnaval

publicado: 11/02/2026 08h41, última modificação: 11/02/2026 08h41
Consumo excessivo de álcool em comemorações pode provocar arritmias cardíacas até em pessoas jovens
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Alteração cardíaca tanto pode ser passageira, melhorando com a suspensão do consumo, quanto pode evoluir para casos graves | Foto: Divulgação/Freepik

por Mirvan Lúcio*

É possível que o seu coração já tenha palpitado por algum amor de Carnaval. Como aquelas histórias que são infinitas até a Quarta-Feira de Cinzas. Mas também existe uma grande possibilidade da aceleração cardíaca ser consequência dos excessos cometidos em momentos de lazer e descontração. Estamos falando da Holiday Heart Syndrome, ou, como é chamado no Brasil, “Síndrome do Coração Festeiro”. Pode parecer uma denominação divertida e até lúdica, mas na verdade é a definição dos riscos causados pelo consumo excessivo de álcool, associado a cigarro e outras substâncias.

A Síndrome do Coração Festeiro caracteriza-se por episódios de arritmia cardíaca, conhecida como fibrilação atrial, que se manifesta após o uso prolongado de bebida alcoólica. No período das festas momescas, em que o álcool é “combustível” para muitos foliões, os casos aparecem com mais frequência. Porém a síndrome, que também é conhecida como “arritmia do fim de semana”, pode acontecer após um churrasco, um almoço com a família, comemorando a vitória do seu time de futebol ou em qualquer outra situação festiva na qual haja ingestão de bebida, sejam elas destiladas ou fermentadas.

O cardiologista e professor universitário, Thiago Farias, alerta que a alteração do ritmo cardíaco não afeta apenas quem já tem uma cardiopatia. “O álcool altera diretamente o funcionamento elétrico do coração. Mesmo pessoas jovens, saudáveis e sem histórico cardíaco podem desenvolver arritmia após o consumo elevado de bebida”, alertou o médico, ressaltando que não existe uma quantidade segura de libação alcoólica. “A dose de álcool é muito variável. É preciso considerar se é homem ou mulher, o peso. Isso tem efeito em nosso metabolismo diferente”, esclareceu.

A síndrome pode acometer pessoas em todas as faixas etárias. A frequência cardíaca considerada normal para uma pessoa adulta, em repouso, está em torno de 60 a 100 batimentos por minuto. Registros acima desse parâmetro caracterizam-se como taquicardia. Já os batimentos abaixo de 60, para adultos em repouso, configura-se uma bradicardia, condição considerada normal para atletas, que têm a musculatura do coração fortalecida.

Sintomas como palpitação, falta de ar, dor no peito, tontura ou desmaios, não devem ser ignorados. Eles podem representar que algo mais grave pode estar acometendo o coração. “As arritmias provocadas pelo álcool podem ser passageiras, melhorando com a suspensão do consumo. Mas ela também pode evoluir para casos graves, como insuficiência cardíaca,  desenvolvimento de trombos e acidente vascular cerebral (AVC). Esses trombos podem se desprender do coração e irem para a circulação cerebral, podendo levar ao óbito”, advertiu o Thiago Farias.

Cuidados com a saúde

Quem já está com a programação carnavelasca definida, é importante abrir uma vaguinha na rotina e tomar alguns cuidados durante a folia. A fotógrafa Hozana  Moreira, de 36 anos, já está com os dois pés nas festas de Momo. Natural de Patos, neste ano, ela escolheu aproveitar as celebrações em João Pessoa, com escalas em Recife e Olinda. Experiente de outros Carnavais e sabendo o quanto a vida de foliã é intensa, Hozana começa os preparativos antes de soarem os primeiros agudos das orquestras de frevo.

“Nos dias que antecedem as festas, é sempre bom se alimentar e se hidratar bem. Academia em dia para aguentar o sobe e desce de ladeira, também ajuda bastante”, indicou. Na hora do bloquinho, a bebida alcoólica chega junto, mas com cautela. “Quando estou bebendo, costumo ir intercalando a bebida com água. Algumas pausas na sombra também é muito bom”, acrescentou. Mesmo com todos os cuidados, Hozana já sentiu palpitações durante e após a ingestão de álcool, na ocasião, associada à adição de energético.

Os especialistas não recomendam a mistura de bebidas alcoólicas com energéticos. Thiago Farias chama atenção para os perigos dessa associação, que pode ser ainda mais danosa para quem vai além nos excessos, com o uso de cigarro e outras drogas. “Os energéticos aumentam a frequência cardíaca. O cigarro prejudica os vasos, aumentando a inflamação e a pressão arterial.  E o uso de outras drogas estimulam ainda mais o coração. Essa combinação pode acarretar arritmias graves, desmaios e, em alguns casos, infarto e morte súbita”.

Seja durante o Carnaval ou no dia a dia, comemorando “as pequenas alegrias da vida adulta”, o consumo de álcool deve ser feito com cautela. Outra dica importante é estar atento ao seu corpo e aos sinais que ele apresenta. “Sentiu algo diferente, procure atendimento médico. Mantenha uma boa hidratação e boa alimentação. E, particularmente falando, procure viver momentos de paz e tranquilidade. Esse é o melhor caminho para uma saúde cardiovascular”, finalizou o cardiologista.

Nos próximos dias, quando até quem não gosta de carnavalizar rende-se a energia, vibração e potência da festa, é importante lembrar que o coração, antes de festeiro,  precisa ser saudável.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de fevereiro de 2026.