O ex-prefeito e comerciante Cristiano Lauritzen, o militar Paulo de Araújo Soares, o político Irineu Joffily e o médico Humberto de Almeida, personalidades distintas da Paraíba, estão entre as figuras eternizadas em esculturas pelo historiador Vanderley de Brito. Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG), o artista plástico encontra na arte uma maneira de tornar a história local mais visual e palpável.
Desde cedo, o professor demonstrou seu talento artístico, começando a expressar--se por desenhos e pinturas. Ainda na infância, aventurou-se na criação de maquetes. Como Vanderley explica, seus primeiros passos na arte da escultura vieram com a utilização de telhas em suas obras. “Com 14, 15 anos, eu comecei a pintar óleos sobre tela, e a escultura surge mais ou menos na mesma época, a partir do meu trabalho com telhas. Depois, passei a trabalhar com murais, por todo o estado da Paraíba. Mas comecei a lecionar e não me atrevi mais a mexer com isso”, relata o artista campinense, hoje com 60 anos. 
Somente após o falecimento de seu pai, em 1988, Vanderley voltou a se dedicar às esculturas. “Meu pai morreu e eu decidi fazer um busto dele para deixar no seu túmulo. Foi o primeiro busto que fiz em cimento — ficou bem rústico e pesadíssimo, porque fiz maciço. Depois desse, algumas pessoas começaram a me pedir [novas obras]. Fiz uma escultura de um ex-prefeito do município de Passagem, que, ainda hoje, está na praça principal da cidade. Mas nunca quis me dedicar profissionalmente à arte; sempre tive outra atividade principal e a arte, para mim, sempre foi um hobby”, lembra o historiador.
A retomada da produção de bustos em cimento e fibra de vidro ocorreu com o início da atuação de Vanderley no IHCG. Ao montar a sede do instituto, ele percebeu a ausência de representações visuais de figuras marcantes da história da Rainha da Borborema. Foi então que o aspecto didático da arte passou a orientar suas novas criações.
A primeira personalidade histórica a ser retratada para a entidade foi o sargento-mor Paulo de Araújo Soares, responsável pela doação das terras que dariam origem ao território de Campina Grande. “Ele é um personagem esquecido na história da cidade e não havia uma referência fenotípica dele, porque viveu antes da fotografia. Então, estudei os descendentes de Paulo Soares — a maioria residente em Boa Vista, no Cariri — e fui observando os traços mais marcantes para compor o rosto”, conta.
Além do tempo dedicado aos estudos para alcançar o retrato mais fiel possível, foi com a escultura de Paulo Soares que Vanderley desenvolveu uma nova técnica, tornando os bustos mais leves e fáceis de transportar. A partir desse trabalho, ele passou a criar as partes ocas de cada escultura separadamente e, ao final, uni-las com fibra de caroá e gesso. Ao todo, o artista leva cerca de dois meses para concluir um busto, desde a pesquisa sobre a personalidade retratada até o período de cura do cimento e a pintura final da peça.
Caráter didático norteia o trabalho exposto na sede do IHCG
É o trabalho como presidente do IHCG que motiva o professor a continuar esculpindo nomes históricos de Campina Grande e da Paraíba. Sua mais recente criação foi o busto de Humberto de Almeida, em homenagem ao centenário de nascimento do médico, celebrado no ano passado.

- Objetivo é compor um acervo de esculturas que preserve personagens e eventos para novas gerações | Foto: Vanderley de Brito/Arquivo pessoal
“A ideia é resgatar a memória dessas figuras, por isso sempre busco realizar um trabalho utilitário, algo que seja perene e represente um valor histórico. As imagens tridimensionais que produzo têm esse caráter didático de resgate e de preservação da história. Sempre procurei unir arte, ciência e educação. Não é arte apenas pela arte; ela tem uma função, uma utilidade para a cidade, permanecendo como um legado para o povo”, enfatiza.
Vanderley antecipa, ainda, qual será a próxima personalidade a ganhar um busto próprio: Teodósio de Oliveira Lêdo, capitão-mor responsável pela colonização de grande parte do território paraibano. “Ele também será uma figura idealizada. Já fiz uma pintura bidimensional de Teodósio, então será mais fácil de imaginá-lo. A ideia é representá-lo como um sertanista da época, mas já encontrei o primeiro desafio: a aba do chapéu, muito fina, tende a quebrar, por ser de cimento. Porém, com criatividade, sempre há uma forma de resolver”, aponta o historiador. “A intenção é que esses bustos integrem o acervo do IHCG, preservando essas memórias para as futuras gerações”, concluiu.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de janeiro de 2026.