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Açude velho

Morte de peixes assusta população

publicado: 13/01/2026 08h53, última modificação: 13/01/2026 08h53
Mais de nove toneladas de animais já foram retirados do local; moradores reclamam de mau cheiro e água escura
2026.01.12 Poluição no Açude Velho causa morte de peixes © Julio Cezar Peres (1).JPG

Os animais mortos são coletados com auxílio de máquinas de sucção e depositados no aterro sanitário de Campina Grande | Fotos: Julio Cezar Peres

por Maria Beatriz Oliveira*

“É um absurdo. Em 60 anos morando em Campina Grande, nunca vi o Açude Velho nessa situação”, desabafou a moradora Josevânia Tavares ao comentar o estado do reservatório, que, desde o último sábado (10), vem apresentando uma grande quantidade de peixes mortos na superfície — de acordo com as informações divulgadas, foram mais de nove toneladas de animais retirados do açude —, água com coloração amarronzada e um forte mau cheiro que se espalha por toda a área ao redor do principal cartão-postal da Rainha da Borborema.

Os peixes mortos são retirados, por agentes da Secretaria de Serviços Urbanos e Meio Ambiente (Sesuma), por meio de máquinas de sucção e encaminhados para o aterro sanitário da cidade.

Na manhã de ontem, o cenário habitual do açude — utilizado por corredores, ciclistas e famílias — apresentava-se completamente diferente. O local era ocupado, sobretudo, por equipes da  Sesuma que realizavam sua limpeza. Os poucos que passavam, por curiosidade ou necessidade, paravam para observar o quadro de devastação ambiental.

“É muito triste. Tenho 72 anos, vivo e ando de bicicleta por aqui todos os dias e nunca tinha presenciado algo assim. Falta cuidado, falta tratar a água antes que o problema chegue a esse ponto. Esse é o lugar mais conhecido da cidade; se o açude se perde, perde-se também a beleza de Campina. O que um turista vai pensar ao ver o principal ponto da cidade nessa situação?”, questionou o aposentado Paulo Rocha, observando a cena no Açude Velho. 

Para quem tem comércio na região, o mau cheiro afasta a clientela. “Oferecemos opções de café da manhã para o pessoal que vem se exercitar por aqui, mas desde domingo o movimento está bem fraco”, comentou Álvaro Lima, proprietário de um quiosque localizado no Açude Velho.

Causas

O engenheiro civil Marcos Aurélio, da Sesuma, reconheceu que a grande quantidade de peixes mortos no Açude Velho é algo sem precedentes. “A condição intrínseca do corpo hídrico é de um açude eutrofizado. Somando-se a isso o baixo nível da lâmina d’água, que reduz a concentração de oxigênio dissolvido, temos o principal fator para a mortandade de peixes observada. Embora situações semelhantes já tenham ocorrido em anos anteriores, desta vez a proporção está mais exacerbada”, explicou.

A eutrofização, mencionada pelo engenheiro, acontece quando há excesso de alguns elementos na água — principalmente nitrogênio e fósforo — que favorecem o crescimento excessivo de algas e micro-organismos. À medida que essas algas se decompõem, o processo consome o oxigênio disponível, provocando desequilíbrios no ecossistema aquático. Como resultado, surgem alterações na cor da água, odores desagradáveis e, em casos mais graves, a morte de peixes.

Segundo a Sesuma, episódios como esse tendem a ocorrer com mais frequência em períodos de altas temperaturas, baixa circulação da água e pouca chuva — condições comuns nesta época do ano.

Reunião

Para identificar as causas específicas do aumento na mortandade de peixes, equipes da Sesuma realizaram a coleta de amostras de água, que serão submetidas a análises físicas, químicas e biológicas. Uma reunião multissetorial também foi realizada, ontem, para definir medidas emergenciais na área afetada.

Além do secretário da Sesuma, Dorgival Vilar, participaram da reunião Joab Machado, secretário de Obras do município; Dunga Júnior, da Secretaria de Saúde (; Raymundo Asfora Neto, secretário de Educação; Marcus Nogueira, da Secretaria de Planejamento; Marcos Alfredo, da Comunicação Municipal; além de técnicos e diretores da Sesuma.

De acordo com o secretário da Sesuma, as ações emergenciais seguem um protocolo técnico voltado para minimizar os impactos ambientais de forma imediata. “Nossa prioridade foi retirar os peixes, fazer a limpeza da área e iniciar a aeração da água, promovendo a movimentação necessária para melhorar a oxigenação do Açude Velho. Esse trabalho continua sendo intensificado”, afirmou.

Já o secretário de Obras (Secob) Joab Machado destacou que, além das ações imediatas, a gestão municipal trabalha em soluções estruturantes e definitivas para o Açude Velho. “Já estamos com estudos técnicos sendo feitos em parceria com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) com recursos garantidos que proporcionarão a revitalização do açude. A proposta vai além das medidas emergenciais e busca uma solução definitiva, com uma grande obra que traga benefícios ambientais e urbanos para a cidade”, afirmou.

A Secretaria de Planejamento (Seplan), por sua vez, também em parceria com a UFCG, desenvolve, há mais de um ano, estudos para viabilizar a dragagem do reservatório, uma das etapas previstas para melhorar a qualidade da água e reduzir o acúmulo de sedimentos.

DPE-PB

O Núcleo Especial de Cidadania e Direitos Humanos (Necidh) em Campina Grande, vinculado à Defensoria Pública do Estado da Paraíba (DPE-PB), expediu ofício à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Campina Grande requisitando informações e providências sobre a grave degradação ambiental registrada no Açude Velho, um dos principais cartões-postais da cidade.

No documento, a Defensoria requisita, no prazo de 15 dias, o envio de relatórios técnicos completos sobre o monitoramento da qualidade da água nos últimos seis meses, um cronograma detalhado de ações emergenciais, de médio e longo prazo, para a recuperação do açude, informações sobre a aplicação de recursos públicos relacionados ao local nos últimos três anos, além de dados sobre a avaliação de riscos à saúde pública e as medidas de comunicação adotadas junto à população.

 No ofício é ressaltado, ainda, que o Açude Velho possui relevância ambiental, social, cultural e econômica para Campina Grande, e que a ausência de resposta à requisição poderá configurar negativa de atendimento para os efeitos legais, conforme previsto na legislação.

Revitalização

Em nota divulgada no sábado (10), quando o problema começou a repercutir nas redes sociais, a Prefeitura de Campina Grande, por meio da Sesuma, informou que já está em andamento um projeto de recuperação do Açude Velho, previsto para começar ainda neste ano.

“No que diz respeito às ações estruturantes, a Prefeitura de Campina Grande esclarece que o projeto de recuperação do Açude Velho está atualmente na fase de planejamento estratégico, que inclui levantamentos técnicos e elaboração dos projetos necessários. As ações contam com recursos do Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata) e estão sendo conduzidas pela Secretaria de Obras (Secob), com apoio da Sesuma e da Secretaria de Planejamento (Seplan). O objetivo é reunir todas as informações técnicas exigidas para os processos licitatórios, possibilitando o início das intervenções no primeiro semestre de 2026. Paralelamente, a Sesuma mantém o trabalho contínuo de monitoramento, fiscalização e manutenção do Açude Velho e de seus canais, com ações de fiscalização ambiental para coibir o lançamento irregular de efluentes e limpeza periódica da superfície da água, incluindo a retirada de folhas, resíduos, materiais flutuantes, animais mortos e outros elementos que possam comprometer a qualidade ambiental do reservatório”, conclui a nota.

O projeto de requalificação do Açude Velho também prevê melhorias nas calçadas, instalação de equipamentos urbanos, ações de acessibilidade e tratamento das águas, dentro de um planejamento estratégico conduzido pela Secob, com apoio da Sesuma, da Seplan e outras pastas.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de janeiro de 2026.