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Coletivos atravessam décadas de luta

publicado: 19/10/2026 10h11, última modificação: 19/10/2026 11h55
Com mais de 35 anos de história, entidades sociais reforçam combate à violência de gênero e rede de proteção às vítimas
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Irene Marinheiro e a equipe do Centro 8 de Março acolhem mulheres, crianças, idosos e PcD que tenham vivido situações de agressão | Foto: Carla Miranda

por Emerson da Cunha*

O ano de 1990 corria na esteira do fim da Ditadura Militar, da promulgação da Constituição Federal de 1988 e do início da redemocratização brasileira. Frente a essas mudanças, era recorrente a participação das mulheres em movimentos sociais e na criação de novos grupos, lutando pela anistia e contra a carestia econômica. Tudo isso contribuía para que elas começassem a se organizar pelos seus direitos. Além disso, as manchetes policiais traziam fatos que mobilizavam a sociedade quanto ao tema: pouco antes daquele ano, duas jovens haviam sido assassinadas por filhos de pessoas com influência no estado, o que teria deixado os casos sem resolução. Foi nesse contexto político que surgiram, frutos da reunião de mulheres de comunidades e sindicalistas, duas organizações feministas que prosseguem até os dias de hoje, com sede em João Pessoa, tendo como uma de suas principais pautas o combate à violência contra a mulher: o Centro da Mulher 8 de Março e a Cunhã Coletivo Feminista.

Irene Marinheiro, coordenadora-geral do Centro da Mulher 8 de Março, lembra que, à época, era comum que as integrantes do centro passassem por escárnio e discriminação, pelo fato de serem mulheres organizadas. Havia, então, só uma Delegacia da Mulher no estado e era para lá que o grupo encaminhava o público atendido. “Essa delegacia funcionava dentro da Central de Polícia. Era em uma salinha, no fim do corredor, e a gente passava por um montão de homens, recebendo todo tipo de piada e desrespeito. ‘Bando de vagabunda, vai trabalhar’, era assim o tratamento dado. Mas, ao invés de nos fraquejar, isso nos fortalecia”.

As mudanças vieram com o tempo, incluindo uma ampliação da rede institucional de proteção às mulheres vítimas de violência — que conta, hoje, com 24 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams) e casas-abrigo —, além da promulgação da Lei Maria da Penha, a partir da qual outros dispositivos legais sobre o tema passaram a valer. O que não mudou, contudo, foram os pedidos de socorro que chegam ao 8 de Março. “Acontece tudo que pode acontecer, por exemplo: a mulher [vítima de violência] pode querer conversar, desabafar, botar sua dor para fora e não querer ir para a delegacia, querer um apoio moral da nossa parte. O que fazemos? Em sua maioria, nós a levamos para a delegacia e para o Centro de Referência [da Mulher Ednalva Bezerra], que faz o acompanhamento psicológico e dá o encaminhamento ao processo [judicial] dela”, explica Irene.

Atualmente, é o Centro 8 de Março que mantém, em parceria com a Secretaria das Mulheres e da Diversidade Humana (Semdh) da Paraíba, o serviço oferecido pelo Disque Cidadão 155, implementado há mais de 10 anos, com abrangência estadual. São mais de 40 pessoas trabalhando no atendimento de telefonemas não apenas de mulheres vítimas de agressão, como também de crianças, adolescentes, idosos e pessoas com deficiência que tenham passado por situação de violência. “Atendemos, anotamos e encaminhamos [os casos] aos órgãos competentes. Por exemplo, se [a vítima] for criança, encaminhamos [o caso] para o Conselho Tutelar ou para o Ministério Público. Se for mulher, encaminhamos para a delegacia”, detalha Irene. O Disque Cidadão 155 registra, por ano, mais de 500 denúncias.

Enfrentamento estrutural

A trajetória da Cunhã Coletivo Feminista está ligada à construção e ao fortalecimento do movimento feminista na Paraíba. A organização surgiu a partir da articulação de mulheres que já atuavam em grupos e experiências feministas anteriores, comprometidas com a luta pelos direitos das mulheres e pela transformação das desigualdades de gênero.

“Entre as seis fundadoras, estão Gilberta Soares e Soraia Jordão, que integraram o Grupo Raízes, em Campina Grande, e as professoras universitárias Ana Adelaide Tavares, Lúcia Maria Temóteo, Rosa Maria Nader e Sandra Maria Craveiro”, esclarece Jô Pontes, que integra a coordenação executiva do coletivo feminista. “Essa articulação reuniu experiências de militância, educação popular e atuação acadêmica, contribuindo para consolidar um espaço de organização política feminista no estado. O nome ‘Cunhã’, de origem tupi, significa ‘mulher’ e expressa essa conexão com a história e os povos originários da região”.

De acordo com Jô, a diversidade das mulheres é um capital do coletivo. “A Cunhã prioriza o trabalho com mulheres e grupos de mulheres, especialmente jovens e periféricas em situação de vulnerabilidade social. Ao longo de sua história, desenvolveu ações com mulheres de diferentes territórios, incluindo periferias urbanas e comunidades rurais do Litoral, do Agreste e do Cariri”.

O foco do grupo não está no atendimento às vítimas de agressão, mas no enfrentamento estrutural do problema — o qual, segundo o coletivo, exige mais do que ações pontuais de sensibilização: requer investimento permanente em prevenção, formação, acolhimento, fortalecimento das redes de proteção e incidência nas políticas públicas. “Também precisamos considerar”, adiciona Pontes, “que a violência não atinge todas as mulheres da mesma maneira. Mulheres negras, periféricas, rurais, com deficiência e mulheres de diferentes gerações enfrentam barreiras específicas para acessar direitos e serviços de proteção. Por isso, é fundamental que as ações do terceiro setor considerem as desigualdades de gênero, raça e classe e sejam construídas a partir das realidades dos territórios e das experiências das próprias mulheres”, finaliza.

Centrac mantém projetos voltados à autonomia feminina

Organização, sediada em Campina Grande, realiza ações de fomento à produção de agricultoras no interior paraibano | Foto: Divulgação

Antes mesmo da criação do Centro 8 de Março e da Cunhã, outra organização começava a dar seus passos no estado. Por iniciativa de um grupo de estudantes de Ciências Sociais da então Universidade Federal da Paraíba (UFPB) — hoje Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) —, surgiu em 1987, na Rainha da Borborema, o Centro de Ação Cultural (Centrac). Entre seus propósitos, estava assessorar organizações da sociedade civil, especialmente associações e sindicatos que buscavam se reorganizar e se fortalecer naquele período. Desde então, a instituição desenvolve ações voltadas à formação cidadã, à participação popular e à defesa dos direitos humanos. Nesse entremeio, o Centrac trabalha a autonomia das mulheres para enfrentar a agressão de gênero.

“Nossa atuação concentra-se na realização de ações formativas e informativas, que contribuam para o reconhecimento das diferentes formas de violência de gênero, a identificação de situações de risco e a divulgação dos direitos das mulheres. Também orientamos as mulheres que necessitam de atendimento a buscar os serviços públicos especializados e os demais órgãos competentes”, indica Patrícia Almeida, coordenadora do Programa Direitos e Igualdade de Gênero do Centrac, que tem executado ações voltadas para as mulheres desde 2004.

O programa aglutina uma série de projetos, como Fortalecimento de Sistemas Alimentares com Mulheres no Semiárido Paraibano, ativo desde 2021 e voltado ao fomento à produção agroecológica, à segurança alimentar e ao protagonismo das mulheres rurais; e Quintais Produtivos, iniciativa lançada em 2025, com foco no incentivo à produção agrícola das mulheres e à sua autonomia. “Essas experiências contribuem para a prevenção e o enfrentamento da violência de gênero ao fortalecer a autonomia das mulheres, ampliar o acesso à informação, promover o reconhecimento de seus direitos e incentivar sua participação social e política”, pontua Patrícia.

Foco nas denúncias

A jornalista e pesquisadora em gênero Mabel Dias observa que não há um perfil aproximado das mulheres que encampam a luta organizada por seus direitos, devido à heterogeneidade desse ativismo, abrangendo mulheres brancas, negras, indígenas, urbanas, rurais, trans e lésbicas, das mais variadas idades. Para ela, os grupos organizados têm atuado especialmente na denúncia de casos de violência contra a mulher, seja, por exemplo, contra programas de TV policialescos que revitimizam e deslegitimam a agressão de gênero, seja na cobrança de justiça contra crimes de maior repercussão nessa seara.

“Há esse trabalho de informar as mulheres sobre os serviços de que elas podem dispor, caso sejam vítimas de violência, além do estímulo à autonomia financeira, para que a vítima possa sair daquela situação de violência e manter-se junto aos seus filhos, ou ir para uma casa-abrigo”, aponta Mabel, acrescentando que as pautas atuais dos movimentos de mulheres na Paraíba também buscam orientar a população feminina a respeito de como denunciar agressões e onde obter assistência para os seus casos.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de outubro de 2026.