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CRM quer mapear casos de violência

publicado: 20/10/2026 09h01, última modificação: 20/10/2026 09h01
Observatório lançado ontem deve registrar ocorrências de forma detalhada, permitindo a fiscalização e a prevenção
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Dados produzidos pelo observatório subsidiarão ações em parceria com outras instituições, como a Polícia Civil e o MPPB | Foto: Roberto Guedes

por Marisa Rocha*

A violência no ambiente de trabalho tem afetado a saúde mental de médicos e comprometido as condições de atendimento nas unidades de saúde da Paraíba. Um levantamento realizado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba (CRM-PB), em 2025, revelou que 80,4% dos 611 médicos entrevistados já sofreram violência verbal durante a atividade profissional. Destes, 62,2% passaram por violência moral, além de relatos de discriminação (37,2%), agressões físicas (9,5%) e violência sexual (5,2%).

Nesse contexto, o CRM-PB lançou ontem, em João Pessoa, o Observatório da Violência contra o Médico. A iniciativa pretende mapear os casos de violência, compreender suas causas e orientar medidas de prevenção. “Nós vamos levantar quais são esses dados da violência contra o médico e saber de que forma a gente pode melhorar esses indicadores”, afirmou o médico e presidente da entidade, Bruno Leandro de Souza.

A ferramenta integra o aplicativo CRMPB On, por meio do qual os médicos afetados poderão registrar ocorrências — quando se sucederem ou posteriormente —, com informações sobre o tipo de violência, o local, os possíveis responsáveis (pacientes, acompanhantes ou gestores, por exemplo) e suas consequências. “Além disso, o diretor técnico da unidade, que é o médico responsável, será obrigado a fazer essa notificação da violência, caso ela aconteça dentro do seu estabelecimento de saúde”, destaca Bruno.

O presidente do CRM-PB ressaltou que a proposta é substituir respostas pontuais por medidas fundamentadas em informações concretas. “Notas de repúdio podem acalentar o coração, mas não resolvem o problema. Nós estamos aqui para resolver o problema”, declarou.

O médico também chamou a atenção para a vulnerabilidade das mulheres dentro desse cenário. De acordo com o presidente do CRM--PB, o conselho possui 13,5 mil médicos ativos, dos quais 52% são mulheres, muitas delas jovens. “Já observamos casos de médicas que vieram ao conselho, ‘aos prantos’, porque estavam sendo perseguidas sexualmente, assediadas pelos seus pacientes”, lembrou.

O dirigente apontou, ainda, que a violência contra o médico costuma ser precedida por conflitos envolvendo outros trabalhadores da unidade, como técnicos de enfermagem e enfermeiros. Para ele, a ação beneficiará, consequentemente, os demais profissionais da saúde. “Ninguém trabalha sozinho, a nossa preocupação é ampla e irrestrita”, pontua Bruno.

Consequências e punições

A violência verbal, as ameaças, o assédio e as situações de constrangimento podem provocar sofrimento psicológico, insegurança e desmotivação entre os profissionais. O presidente do Sindicato dos Médicos da Paraíba (Simed-PB), Tarcísio Campos, destacou que as condições de trabalho e a falta de segurança contribuem para agravar esse cenário.

Para o presidente do Simed-PB, o problema está relacionado, entre outros fatores, à responsabilização dos médicos por falhas estruturais do sistema de saúde. “Muitas vezes, o paciente não entende que aquela fila, aquele exame que demorou a chegar e a cirurgia que não foi marcada não são culpa do médico”, explicou.

Além de reunir estatísticas, o observatório deverá subsidiar ações de fiscalização e articulação com outras entidades médicas, como o Simed-PB e a Associação Médica Brasileira na Paraíba (AMB-PB), além de órgãos públicos — o Ministério Público da Paraíba (MPPB) e a Polícia Civil da Paraíba (PCPB), por exemplo. “Por meio dos dados e das estatísticas que nós obtivermos, nós vamos encaminhar e trabalhar em conjunto com esses órgãos para verificar qual é a melhor solução”, explicou Bruno Leandro.

A delegada Maíra Roberta Mendes, chefe de gabinete da PCPB, apontou que o mapeamento poderá ajudar a identificar unidades e regiões com maior concentração de ocorrências. “Essa parceria é muito importante para que a gente possa, o quanto antes, receber a denúncia, iniciar as investigações e dar uma resposta rápida para essa situação”, afirmou. A ideia é evitar que as intervenções sejam definidas sem considerar as particularidades das unidades de saúde e as causas das agressões.

Entre as medidas que poderão ser avaliadas, conforme a gravidade e as características de cada situação, estão o reforço da segurança, a instalação de câmeras de monitoramento, a adoção de botões de pânico e o aumento da presença policial em unidades consideradas mais vulneráveis.

Pioneirismo

A iniciativa desenvolvida na Paraíba poderá servir de referência para o enfrentamento da violência contra médicos em todo o país. O diretor técnico do Conselho Federal de Medicina (CFM), Alexandre Menezes, destacou o pioneirismo do estado na criação de uma ferramenta que permite registrar e sistematizar as ocorrências, transformando denúncias em dados que podem orientar medidas de preven-
ção e segurança.

Segundo ele, há o desejo de apresentar o aplicativo à diretoria do CFM para discutir a ampliação da ação nacionalmente. “Que a gente leve essa iniciativa do Conselho da Paraíba para o Brasil todo”, projetou. A possível expansão poderá ampliar o alcance do mapeamento e contribuir para que outros conselhos regionais identifiquem os locais mais vulneráveis e desenvolvam ações direcionadas às necessidades de cada unidade de saúde.

Homenagem

O lançamento do Observatório da Violência contra o Médico também foi marcado pela homenagem à médica Maria Emília Fernandes Vieira, assassinada em 1994 enquanto trabalhava no serviço público de saúde, no Pronto Atendimento Médico (PAM) de Jaguaribe, em João Pessoa.

A lembrança foi destacada pela ginecologista e obstetra Fabíola Ferreira, irmã da médica, que ressaltou a importância de preservar a memória do caso e transformar a preocupação com a violência em medidas concretas. Fabíola avaliou, ainda, que o registro sistemático dos casos poderá contribuir para estudos e para o desenvolvimento de estratégias capazes de proteger os profissionais no exercício da Medicina. “Desejo que se criem mais serviços de proteção ao médico, para que as futuras gerações de médicos não tenham que passar por uma situação tão triste como a que nós vivenciamos [a morte de Maria Emília]”, declarou.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de outubro de 2026.