De volta à praia onde nasceram, tartarugas marinhas adultas saem do mar para depositar seus ovos na areia. De novembro a maio, algumas das cinco espécies que vivem nas águas brasileiras aproveitaram o litoral paraibano para dar continuidade ao ciclo da vida que, na atual temporada de eclosão — época que, normalmente, estende-se até o mês de julho —, está começando para mais de 23 mil filhotes, de acordo com a Associação Guajiru, organização não governamental (ONG) que protege e monitora esses animais. A média de eclosão já ultrapassa 70% — um resultado considerado positivo, especialmente pelo fato de o período reprodutivo ainda não ter sido concluído.
A costa da Paraíba é considerada estratégica não apenas para a reprodução e postura dos ovos, como também para a alimentação e o desenvolvimento das tartarugas-marinhas, que desovam em toda a faixa litorânea do estado. Dentre as espécies, a mais comum é a tartaruga-de-pente, mas tartarugas-verdes, tartarugas-oliva e tartarugas-cabeçudas também são avistadas com frequência. A única espécie que ainda não foi registrada desovando na orla paraibana é a tartaruga-de--couro, que, segundo a bióloga Juliana de Fátima Galvão, costuma ser avistada nos estados do Espírito Santo e Piauí.
Vice-presidente da Guajiru e mestre em Ecologia e Monitoramento Ambiental, Juliana explica que a taxa de eclosão depende de fatores biológicos e ambientais, portanto pode variar bastante de um ninho para outro. Dentre os aspectos biológicos, ela destaca a fertilização dos ovos e características genéticas dos embriões. Já em relação aos agentes ambientais, sobressaem-se a temperatura e a umidade da areia, a compactação do substrato, a ocorrência de alagamentos, a predação e até mesmo as condições de manejo, quando há necessidade de intervenção. Além disso, o aquecimento global tem se tornado uma preocupação cada vez maior.
“O aumento das temperaturas pode afetar diretamente o desenvolvimento embrionário das tartarugas marinhas, reduzindo o sucesso de eclosão dos ninhos. Em 2024, por exemplo, registramos uma taxa média de eclosão em torno de 50%, significativamente inferior à observada nesta temporada”, diz Juliana. Conforme a bióloga, tal resultado pode estar relacionado às condições climáticas extremas, computadas há dois anos: 2024 foi apontado, pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), como o ciclo mais quente em 175 anos de monitoramento.
Cuidados básicos ajudam a preservar as espécies
Durante as visitas às praias do estado, paraibanos e turistas podem ajudar a proteger as tartarugas marinhas, adotando comportamentos simples. Ao avistar uma fêmea em processo de desova, é importante manter uma distância mínima de 10 m, evitar aglomerações e qualquer tipo de perturbação que possa interromper o comportamento natural do animal, a fim de garantir que a mãe não desista da postura dos ovos. Se a pessoa quiser fotografar, é importante não usar o flash da câmera ou qualquer outra fonte de luz branca, capaz de desorientar tanto a fêmea adulta quanto os filhotes, que, ao deixar o ninho, utilizam o brilho na superfície do mar para se guiar.
Juliana conta que, ao encontrar um local de desova — comumente, por meio dos rastros deixados pelas fêmeas, que tendem a cavar seus ninhos à noite ou de madrugada —, as equipes da Associação Guajiru delimitam a área da câmera de ovos e instalam cercas de proteção antes mesmo da chegada dos banhistas. O objetivo é evitar o pisoteio dos ninhos, a compactação da areia e a perda dos vestígios da tartaruga adulta. O local permanece sendo acompanhado durante todo o período de incubação, que dura, em média, 52 dias.
Após eclodirem, os filhotes permanecem sob a areia por alguns dias e alcançam a superfície naturalmente — conquista que é fruto de um esforço coletivo. “Durante esse período, os cercados continuam protegendo a área contra interferências humanas e outros impactos. Somente quando os filhotes alcançam a superfície é que os cercados são removidos, permitindo que eles realizem seu deslocamento natural até o mar. Esse percurso é uma etapa importante do ciclo de vida das tartarugas marinhas e, por isso, é realizado com o mínimo de intervenção humana possível”, esclarece a bióloga.
Para ela, os cuidados que a Guajiru aplica à proteção das tartarugas marinhas, há 24 anos, na Paraíba, deram frutos: os biólogos têm observado que tanto o número de desovas quanto o número de filhotes nascidos têm aumentado. Tal esforço pode contribuir para ajudar espécies como a tartaruga-de-pente, ameaçada de extinção. Caso uma pessoa encontre um desses animais, pode contatar a ONG por meio do celular (83) 99608-5226 ou do perfil no Instagram (@associacaoguajiru).
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de junho de 2026.