A crise de mortandade de peixes e poluição da água do Açude Velho movimentou os órgãos de investigação da Paraíba, e a Polícia Civil com o Ministério Público do Estado investigam a hipótese de um possível crime ambiental no principal cartão-postal de Campina Grande.
Diante da grande repercussão pública e do elevado número de mortes, a Polícia Civil, por meio da Delegacia de Crimes Ambientais, instaurou um inquérito para investigar as causas da mortandade e verificar a possibilidade de crime ambiental. Amostras da água foram coletadas na noite de segunda-feira (12) e encaminhadas para perícia química no Instituto de Polícia Científica da Paraíba (IPC).
“Nós fomos acionados para realizar a perícia no Açude e fizemos o trabalho em conjunto com o Corpo de Bombeiros, que auxiliou na coleta da água em três pontos distintos — nas margens e no centro, em diferentes profundidades. Essas amostras serão analisadas em laboratórios parceiros do IPC. Ainda estamos definindo se as análises ocorrerão na Universidade Estadual da Paraíba [UEPB] ou no Instituto Nacional do Semiárido [Insa], e a Companhia de Água e Esgotos da Paraíba [Cagepa] também se colocou à disposição para colaborar. Só após a conclusão do laudo poderemos afirmar o que realmente provocou essa situação”, explicou a superintendente do IPC, Juliana Holanda.
A coleta resultou em seis frascos de 80 ml cada um, que serão examinados pela equipe de peritos químicos do IPC. “A amostragem em diferentes pontos é essencial, já que fatores como matéria orgânica, oxigênio dissolvido, nitratos, nitritos e coliformes fecais podem variar conforme a localização. Faremos uma análise completa, e é importante destacar que, mesmo com o apoio de laboratórios parceiros, a custódia das amostras permanece com o perito, que acompanha todo o processo até a liberação do laudo”, explicou Aline Sales, perita química do IPC.
Segundo Aline, o Instituto tem um prazo legal de 10 dias para divulgar o laudo, podendo ser prorrogado pelo Ministério Público, se necessário. Os resultados serão fundamentais para determinar se houve ou não crime ambiental. “Sabemos que as temperaturas estão elevadas e que o Açude funciona quase como uma lagoa de captação, o que aumenta a evaporação. Além disso, há uma alta carga de esgoto no local. Então, isso pode, sim, levar a um processo de eutrofização natural. Contudo, se os resultados apresentarem níveis adequados de oxigênio dissolvido, nitrogênio e coliformes fecais, dentro dos padrões legais, será preciso considerar outras hipóteses”, concluiu a perita.
Outros órgãos
O Ministério Público da Paraíba (MPPB) também vem investigando a situação do Açude Velho desde a abertura de um inquérito civil há dois meses, conduzido pelo promotor de Justiça do Meio Ambiente de Campina Grande, Hamilton de Souza. Ontem, o MPPB requisitou que a Prefeitura Municipal de Campina Grande, por meio da Secretaria de Serviços Urbanos e Meio Ambiente (Sesuma), identifique e autue os infratores, pessoas físicas e jurídicas que residem, alugam ou exercem atividade comercial no entorno do Açude Velho, que estão realizando despejo de águas residuais de esgoto na rede de águas pluviais. Os casos identificados deverão ser encaminhados para a Promotoria de Justiça.
A Defensoria Pública do Estado da Paraíba (DPE-PB) também acompanha o caso e solicitou à Prefeitura informações detalhadas sobre a qualidade da água do reservatório nos últimos seis meses, as medidas emergenciais adotadas, o orçamento municipal destinado à manutenção do Açude e possíveis impactos à saúde da população. O município tem um prazo de 15 dias para apresentar essas informações.
Animais mortos
De acordo com informações da Sesuma, desde o fim de semana, quando os primeiros peixes começaram a aparecer mortos na superfície do Açude, já foram retiradas mais de 10 toneladas de animais da água. Os peixes estão sendo encaminhados para o aterro sanitário de Campina, situado no distrito de Catolé de Boa Vista.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de janeiro de 2026.